Terremoto e luvas
Por Marina Terra
São Paulo - Aquí enterramos a Salvador Allende, Presidente de Chile”, gritou um dos maiores símbolos femininos da esquerda latino-americana às margens do túmulo de seu marido, no dia 12 de setembro de 1973. Ontem, 18 de junho de 2009, tendo a seu lado na cama a filha, Isabel, Hortensia Bussi faleceu de forma serena, aos 94 anos, se encerrando assim uma vida de militância e força. Logo após o suicídio do presidente chileno Salvador Allende, deposto de forma brutal pelas forças do general Augusto Pinochet no 11 de setembro do Hemisfério Sul, Hortensia se exilou no México e de lá se mobilizou de forma ativa contra as atrocidades que eram cometidas no continente, então fortemente dominado pela ignorância militar. Ela nunca deixou, no passar de todo este período de vida, que a lembrança da morte de seu companheiro – e o que ela representou e ainda representa para toda uma geração – se apagasse. Como contou com um riso estampado no rosto à revista chilena Ercilla, em 1970, o primeiro encontro entre Hortensia e Allende foi um prenúncio de que o amor daquele casal não seria tranquilo. No dia 24 de janeiro de 1939, na cidade de Chilán, a terra começou a tremer – mais precisamente um terremoto de 7,4 pontos na escala Richter, que deixou um saldo de 90 mortos. Hortensia, que no momento assistia a um filme no cinema local com um amigo, teve de fugir do Santa Lucía de Santiago às pressas. No entanto, retornou por un breve momento para buscar um par de luvas que havia esquecido no interior do cinema. Quando saiu, seu colega estava conversando com Salvador Allende. Os três foram tomar um café e um ano depois, Hortensia e o sobrevivente do terremoto se casaram. No dia da despedida final, Hortensia estava em sua casa, na rua Tomás Moro, Santiago, que foi bombardeada pela Força Aérea chilena. “Entre cada uno de los ataques se desataba un tiroteo de locura. La residencia se convirtió en una masa de humo, de olor a pólvora, de destrucción”, disse dias depois do ataque. Acompanhada por um sobrinho e sob a vigilância desrespeitosa das forças militares, ela enterrou o marido em Valparaíso. Todavia, apesar do medo, não deixou de lembrar que ali jazia o verdadeiro presidente do país. Coragem e ideologia. Dois ingredientes abundantes em Hortensia e que tanto fazem falta nos dias de hoje.
Etiquetas: Chile



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